Da ideia à solução: experiências de criar, brincar e aprender, dentro da sala de aula [apresentação do Laboratório Baú do Brincar]

São quatro horas de uma tarde perfeita para uma aventura que já vem sendo preparada há duas semanas pelos alunos de uma das turmas do 4º ano – uma pescaria épica, com o dois grandes objetivos: identificar uma espécie de peixes exótica e outra endémica, que habitam as águas da região centro oeste de Portugal. 

Nas semanas anteriores descobrimos ecossistemas fluviais e marinhos, investigaram-se espécies… cada equipa construi a sua própria cana de pesca, com peças do Baú (roldanas, blocos, parafusos, fios, etc). Tudo preparado para o grande dia! 

Apesar da pescaria ser fictícia – no pátio da escola – o entusiasmo estava ao rubro; foram publicadas regras para o evento, anunciadas pontuações para cada espécie capturada (sem relevar ainda as espécies exótica e endémica). Espalhámos as espécies (ilustrações reais impressas) pelo “estuário” do rio; colocaram-se os anzóis nas canas (ímanes); e começou a pescaria. Cada equipa foi discutindo a sua estratégia, identificando as espécies no “estuário”, apanhando os seus exemplares, anotando pontuações… no final faltava saber se o objetivo tinha sido cumprido, pois apanhar a espécie exótica dava pontos extra; apanha a espécie endémica ou qualquer das demais protegidas prejudicava gravemente as pontuações.

 

🌟 “O que precisas criar?”

O cenário retratado no ponto anterior ilustra a ideia central deste Laboratório: é lançado um desafio – umas vezes muito concreto e fechado (como na aula da pescaria); outras mais aberto e de criação livre – e logo de seguida é lançada a questão: “O que precisas criar?”, ou seja, o gatilho para a resolução prática de problemas, sendo que no Laboratório, a palavra “problema” ganha múltiplas dimensões:

  • Um desafio de criação – transformar uma ideia de um brinquedo, de um jogo ou mecanismo que se idealizou, em algo concreto, construído e partilhado com a turma.
  • Um desafio de aprendizagem – entender como funciona um mecanismo, um conceito da vida real.
  • Um desafio mecânico ou de construção concreta – criar uma “máquina” que facilite a vida e resolva o problema, com a maior eficiência possível.
  • Um desafio relacional: resolver um conflito, negociando ideias com os colegas de equipa, gerindo a partilha de recursos ou integrando a opinião dos outros.
  • Um desafio comunitário: identificar uma necessidade no espaço da escola ou no bairro e desenhar uma resposta concreta.

Na prática, ao associar o ato criativo à resolução destes desafios, a criança ganha agência. Deixa de encarar o obstáculo como algo bloqueador, para o ver como uma oportunidade para investigar, testar e encontrar caminhos.

Para estruturar esta dinâmica, combinamos princípios da abordagem Learn Through Play (aprender a brincar) e da Project-Based Learning (aprendizagem baseada em projetos), utilizando o entusiasmo da exploração tátil para canalizar a atenção dos alunos para desafios intencionalmente ligados com o desenvolvimento de competências e aprendizagens essenciais.

 

🛠️ O ciclo criativo em ação

Transformar uma ideia numa solução tangível exige método, que no Laboratório Baú do Brincar (LBdB) se aborda olhando de forma intencional para o desenvolvimento das funções executivas – como o planeamento, a memória de trabalho e a flexibilidade mental. No Laboratório organiza-se essa caminhada em seis etapas fluidas:

  1. Observar: Analisar o enunciado, observar o meio envolvente e escutar os contributos dos colegas.
  2. Idealizar: Gerar possibilidades para resolver o desafio proposto, assente no princípio de que todas as ideias valem a pena ser testadas.
  3. Planear: discutir ideias, fazer o esboço do projeto no papel, selecionar os materiais do Baú e organizar as tarefas.
  4. Criar e Iterar: Mãos na massa, testes práticos e validação do protótipo.
  5. Celebrar (Brincar): Usufruir do objeto criado – testar a máquina, jogar o jogo construído e partilhar o resultado com o grupo (apresentação).
  6. Refletir, Aprofundar e Avaliar (Avaliação Formativa): Sintetizar o que se aprendeu e tornar a aprendizagem visível – registar o que se fez, o que se aprendeu, e o que se gostaria de saber mais sobre o tema. 

 

🤝 A dinâmica entre Adultos e Crianças –  o professor mediador

Uma aula LBdB tem sempre como base uma dinâmica colaborativa, que neste primeiro de aplicação do projeto no AEMarrazes se procura materializar desde logo na relação entre o técnico do programa e o professor titular, num modelo de parceria pedagógica.

Esta presença no terreno facilita a transição de um modelo meramente expositivo de conteúdos, para um modelo de facilitação de aprendizagens:

  • Transição ativa – criam-se experiências que permitem ao professor titular abordar conteúdos curriculares em experiências de aprendizagem que podem depois ser aprofundadas em contexto de aula regular.
  • Autonomia e Regulação – coloca-se na criança o ónus da gestão dos materiais e do processo criativo (da investigação à execução); o professor foca-se na mediação de aprendizagens e de relações. Os resultados são partilhados com todos.
  • Resiliência e valorização do erro no processo de aprendizagem – “Erra de novo, mas erra melhor!” é um dos lemas do programa, procurando libertar a criança do medo de errar no processo criativo.

 

🚀 Do contexto não formal à sala de aula: a evolução do projeto

O LBdB tem a sua génese no contexto das Atividades de Enriquecimento Curricular (AEC), um espaço de educação essencialmente não formal, onde fomos testando dinâmicas e materiais, juntamente com as crianças. Percebendo o potencial da abordagem, o Laboratório deu um salto qualitativo: passou para dentro do tempo letivo regular, em quatro escolas do 1ºCEB do Agrupamento de Escolas de Marrazes (Leiria), um Território Educativo de Intervenção Prioritária (TEIP), onde a metodologia tem demonstrado um enorme potencial promover a equidade (participação de todos) e motivação para a aprendizagem.

Transitar do espaço não formal para a sala de aula trouxe o desafio de alinhar a metodologia com as exigências e os tempos do currículo regular. Esta aplicação do programa foi por isso desenhada para testar a abordagem, sendo que para isso definimos duas fases (não lineares):

  • No primeiro ano: aprofundar a estrutura original do projeto, mantendo o foco no treino de soft skills (resiliência, trabalho em equipa, planeamento, …) associadas, pontualmente, aos conteúdos curriculares – tendo por base um modelo centrado na intervenção de um técnico especializado do programa (externo à escola).
  • No segundo ano: testar, progressivamente, o desenho de experiências a partir dos conteúdos curriculares, apostando na progressiva capacitação dos professores titulares, ou seja, criando experiências replicáveis em contexto de sala de aula, pelo professor titular, em autonomia.

Paralelamente definimos outros objetivos de teste:

  1. Maratonas Criativas: criar eventos pontuais e intensivos, que levam o método de resolução de problemas para lá da sala de aula. As Maratonas Criativas juntam crianças, professores e adultos da comunidade (incluindo as famílias) para desafiar a imaginação e construir soluções colaborativas para problemas reais.
  2. Experimentação de novos materiais – para além dos blocos de madeira criativos “artesanais”, o Laboratório procura expandir a sua “materialidade”. Procuramos integrar novos recursos de construção, como peças LEGO e materiais desestruturados (loose parts). Esta diversidade amplia as possibilidades de prototipagem e permite às crianças experimentar diferentes texturas, encaixes e físicas de construção.
  3. Formação Certificada de professores e técnicos de educação – a sustentabilidade do projeto assenta na capacitação de quem está no terreno. Em parceria com um Centro de Formação e a Universidade de Leiria e do Oeste, o LBdB desenvolve módulos de formação acreditada e sessões práticas[cite: 2, 3]. O objetivo é dotar os professores e técnicos de educação de competências validadas em metodologias ativas, garantindo a continuidade e a autonomia da aplicação da metodologia no futuro.

🧭 A aventura do conhecimento

A filosofia do LBdB pode ser resumida na máxima: “Não damos o peixe; ensinamos a pescar”. Em vez de fornecer respostas prontas, procuramos criar contextos onde o conhecimento é construído a partir da experimentação.

Voltando ao início deste artigo, um exemplo prático desta aplicação foi a pescaria que descrevemos, onde os alunos não só construíram a sua própria cana de pesca, como aplicaram competências de investigação para identificar espécies no terreno, geriram estratégias e decisões de grupo, partilharam conhecimento e trabalharam colaborativamente para concretizar os seus objetivos. 

E se se estava a questionar sobre que espécies seriam o quê, naquele desafio, fica a saber, tal como aqueles pescadores criadores: o pimpão era a espécie exótica e o ruivaco-do-oeste, a espécie endémica – e assim se transformou um desafio de brincar numa lição inesquecível de biodiversidade e literacia científica.

 

Assim, ao transformar cada problema num desafio, o Laboratório Baú do Brincar espera contribuir para cada vez mais crianças consigam concretizar o seu potencial, tornando-se 

nos cidadãos criativos e resilientes que o nosso futuro precisa.

 

🤝 Colaborar para enriquecer a escola pública

Esta caminhada do LBdB é consolidada por uma rede colaborativa que apoia a inovação na escola pública: o Agrupamento de Escolas de Marrazes, a inCentea / Associação Incentivar, o Município de Leiria, a União de Freguesias de Marrazes e Barosa e a Escola Superior de Educação e Ciências Sociais do Politécnico de Leiria, contando com o financiamento principal do Prémio BPI Fundação “la Caixa” Infância 2025 e o apoio da inCentea / Associação Incentivar.

Se deseja conhecer melhor a metodologia ou levar os recursos do Laboratório Baú do Brincar para a sua escola, entre em contacto conosco.
Vamos continuar a construir, passo a passo, experiências de aprendizagem com impacto.

 

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