brincar ao ar livre

Brincar ao ar livre: 5 benefícios para as crianças

Se pensarmos na realidade antes da pandemia, as oportunidades para brincar ao ar livre que eram dadas à esmagadora maioria das crianças eram já reduzidas. O Estudo “Portugal a Brincar”, coordenado por Rui Mendes e elaborado pela Escola Superior de Educação de Coimbra (ESEC) em parceria com o Instituto de Apoio à Criança (que recolheu informação junto de 1466 famílias) revelava já que a rua ocupava a última posição no que respeitava ao local onde as crianças brincavam. Segundo os pais, o ambiente escolar (escola 53,8% e 4,5% em centros de atividades de tempos livres), onde as crianças passam a maior parte do seu tempo, apresenta-se como o local preferido para brincar. Segue-se o ambiente casa/familiar (30,4%) e, por último, a rua (2,2%).


 

“Inimigos” para as crianças saírem à rua

Podemos apontar várias explicações, mas há algumas que estão entre as mais comuns como as maiores “inimigas” para sair à rua e se brincar ao ar livre:

  • trânsito mais intenso (mais veículos a circular)
  • entretenimento digital (88% das crianças entre os 6 e 10 anos, passam mais de 3 h por dia em frente aos écrans, segundo um recente estudo da Universidade de Coimbra, publicado na revista científica BMC Public Health)
  • a superproteção e medos dos pais
  • o paradigma no mercado de trabalho e consequente falta de disponibilidade dos pais (segundo o relatório “Working Time in 2017-2018″ da Eurofound, Portugal tem uma média de 40,8 horas em Portugal trabalhadas, se comparado com as 40, 2 horas em média na União Europeia).
  • Sobrecarga da agenda das crianças com atividades estruturadas.

 Para Carlos Neto, professor e investigador da FMH (Universidade de Lisboa), “é tempo de decretar o estado de emergência na infância em tempos de pandemia” e, mesmo com a necessidade de algumas regras, “não ter uma visão obsessiva de estarmos a limitar as crianças na sua expressividade e corporalidade”. A favor do brincar na rua está um estudo do Instituto Nacional de Doenças Infecciosas (NIID) do Japão, que demonstra que o risco de contágio em espaços fechados é 19 vezes superior, se comparado com o exterior.

 

Brincar ao ar livre. Quais os benefícios?

Enumeramos 5 razões, que ganham especial importância pelo contexto que vivemos:

1. Cuidar da saúde mental

Meses fechadas em casa, sem verem os amigos da escola, sem tempo para serem crianças, num ano letivo que será certamente desafiante, com receios e mais regras exigem que cuidemos da saúde emocional das crianças.

O contacto com a natureza e ar livre é rico em estímulos para a criança, que a desafiam e ajudam a desenvolver diversas competências. Muitos são os estudos que demonstram que o contacto com a natureza diminui a aptidão a transtornos de défit de atenção ou hiperatividade, bem como estados de ansiedade ou depressão (que o contexto covid-19 tende a incrementar).

Segundo a psicóloga Laura Sanches, o tempo para brincar ao ar livre é “sempre essencial mas, nos momentos de tensão ainda mais importantes se tornam. A brincadeira livre, de preferência ao ar livre e sem regras impostas é uma forma essencial das crianças libertarem o stress (…), por isso, em tempos difíceis, precisa de ser privilegiada mais do que nunca. Os precisam de encontrar tempo para que as crianças possam brincar livremente, na rua de preferência.

2. Cuidar da saúde física

Se antes os níveis de sedentarismo e excesso de peso nas crianças já eram preocupantes, o confinamento por causa do covid-19 veio agravar o cenário. As crianças chegavam a passar 80% do tempo sem qualquer atividade física (segundo o estudo de investigadores da ESDL do Inst. Politécnico de Viana do Castelo, da FMH e da Escola Superior de Educação). Neste ano lectivo, a pandemia obriga às crianças mais tempo de cadeira, quietude e tempo reduzido de intervalos. Os últimos meses foram tempos – ainda mais – de ecrãs. Para Carlos Neto, é preciso “ter crianças fisicamente ativas e diminuir o tempo de exposição face aos ecrãs”. E se dissermos que brincar ao ar livre reforça o sistema imunitário das crianças? Porquê? Porque propicia o contacto com vários micro-organismos e, por isso, o organismo ganhará maior resistência a doenças.

3. Aumenta o sentido de comunidade e o respeito/conservação pela natureza e o espaço público

Nesta pandemia, caminhámos juntos para relações de vizinhança mais fortes (de nos ajudarmos uns aos olhos, de olhar para um vizinho que poderia precisar de ajuda, etc). É preciso (re)criar relações de confiança entre a comunidade, no bairro. Brincar ao ar livre reforça o sentimento de pertença e incentiva a criar laços entre pessoas  – vizinhas no mesmo bairro -, potenciando a participação mais ativa de cada um na comunidade da qual fazem parte. Para além disso, brincar ao ar livre potencia nas crianças uma maior compreensão pela natureza e, por isso, tendem a respeitá-la.

4. Desenvolve competências como confiança, resiliência e criatividade

Dizem que as crianças se adaptam bem às circunstâncias que vivemos de pandemia. Mas a capacidade de adaptação e resiliência são algumas das competências potenciadas no brincar livre no exterior. Porque garantir à criança tempo para brincar ao ar livre? Porque potencia experiências e dá-lhe ferramentas para, no futuro, lidar com situações inesperadas, como a que vivemos. Correr riscos, enfrentar conflitos (entre os pares) e geri-los enquanto se brinca promove um adulto mais confiante, resiliente e criativo. E o que podemos dizer acerca da criatividade? Claro, é uma das competências muito apreciadas no mercado de trabalho, porque procuram-se profissionais capazes de encontrar soluções alternativas aos problemas existentes.

5. Novas oportunidades de socialização

Bem sabemos que impera agora o distanciamento social. Mas brincar ao ar livre, na rua, proporciona novas oportunidades de socialização, espaço para crianças do mesmo bairro se conhecerem e relacionarem. É o mote perfeito para desenvolver novos relacionamentos entre pares, potenciando também uma outra competência adquirida em contexto grupo: a capacidade de trabalhar em equipa.


Sabemos que os dias estão virados do avesso. Mas, no meio da inquetude, do medo e incerteza, há uma certeza: as crianças precisam de brincar. E, com tanto tempo fechadas entre paredes, precisam de respirar rua. De sentir a natureza. De ser criança.

 

Leave a Reply

Your email address will not be published.

Share This

Copy Link to Clipboard

Copy