“O que me preocupa é que os pais (…) não queiram dar aos filhos aquilo que tiveram de melhor na sua infância.”

A afirmação não é minha; é retirada de uma entrevista ao psicólogo Eduardo Sá. A declaração completa é a seguinte:

“A mim o que me preocupa é que os pais muitas vezes digam que quando eram crianças brincavam, tinham uma vida ao ar livre, tinham uma vida muito mais livre e que não queiram dar aos filhos aquilo que eles tiveram de melhor na sua infância.”

(nota: os estudos em Portugal indicam que entre 90% a 98% dos pais brincaram na rua, em autonomia, mas apenas 10% das crianças de hoje o fazem).

Sou pai…Esta é uma declaração que põe o dedo nas nossas feridas (de gente que quer o melhor para os seus filhos e que tem que fazer escolhas).
Todos sabemos disto. Qualquer pai sabe que é importante ganhar hábitos de atividade física desde pequeno (um corpo capaz de aceitar desafios numa mente pronta para definir novas metas, é “meio caminho andado” para termos adultos ativos e saudáveis, física e mentalmente); que é vital aprender a criar e cultivar relações com os pares, com a comunidade (porque somos seres sociais: aprendemos, evoluímos e procuramos a felicidade na nossa relação com o(s) nosso(s)grupo(s)); que é fundamental aprender gradualmente a ser autónomo, sentir-se progressivamente mais seguro e capaz de avaliar riscos, tomar decisões, resolver desafios (que começam nos desafios de brincar e seguem pelos desafios de se ser “adulto”).

Todos sabemos isto, mas o telemóvel aparece cada vez mais cedo na vida dos miúdos e cada vez com mais intensidade (as crianças portuguesas passam de 2,5h a 4h por dia, em média em frente a ecrãs); as agendas dos miúdos estão cada vez mais preenchidas de atividades estruturadas (perderam em média 2h de tempo livre por dia nas últimas três décadas e são das que têm mais horas de atividades “letivas”); eles – como nós, todos – vivem cada vez mais isolados na bolha “pseudo segura” que é a casa, escola, ATL (apenas 4% das crianças portuguesas se encontram com os seus pares fora do tempo de atividades formais e 70% das crianças portuguesas passam menos de 1 hora ao ar livre por dia).

Dir-me-ás que o mundo mudou: que a rua onde viveste quando eras criança era bem diferente da rua onde vives hoje, com mais carros e gente a passar; que os vizinhos te conheciam praticamente todos e te ajudavam (a ti, aos teus pais), sempre que era necessário; que os teus pais tinham mais tempo para estar em casa contigo; que não havia este desassossego de “insegurança” em relação às crianças; que havia pouco ou nada para fazer e portanto a rua era um dos únicos entretenimentos possíveis.

O mundo mudou, claro. 

Mas se olhares com atenção, a rua não é assim tão diferente – é verdade que vivemos mais nas cidades, que provavelmente há mais carros; mas há cada vez mais passeios seguros, jardins, regras e pessoas/ entidades civilizadas, que fazem do (teu) Portugal de há 30 anos uma miragem muito distante (para muito melhor).
Se analisares o teu dia-a-dia, vais perceber que conhecer os vizinhos, criar relações depende de ti… que provavelmente pertences ao grupo daqueles que não se apresentou ao vizinhos quando se mudou para a nova casa, que acha que as reuniões de condomínio são uma perda de tempo, que nunca convidou os miúdos do prédio para uma tarde de brincadeira no parque, “porque ia parecer mal… o que é que iriam pensar de ti?!”

Se perguntares aos teus pais, vais entender que afinal eles não tinham mais tempo para ti do que o tempo que tu tens hoje… que os teus pais trabalhavam ainda mais porque os salários eram (ainda mais) curtos e passavam menos tempo em casa porque não havia transportes públicos e tinham que se sujeitar a horários apertados e boleias; que mesmo que a tua mãe trabalhasse em casa, esse tempo era de trabalho duro e dedicado, com a mesma disponibilidade (de tempo) para ti que aquela que tu tens hoje para com os teus filhos; que as grandes diferenças provavelmente estão no facto de não haver tempo dedicado a redes sociais (digitais) e que a “rede social” da altura era real, verdadeira, palpável: a vizinha do lado que te dava “um olho” até que os pais chegassem do trabalho; o prédio onde viviam uns amigos dos teus pais, que tinha uma cave grande, onde os miúdos da rua se reuniam; ou a praceta (ou mesmo a rua) que se enchia de jogos e brincadeiras depois do lanche de todos os dias da semana. Se investigares um pouco mais a fundo, vais compreender que nunca foi tão seguro viver neste país (somos o 5º mais seguro do mundo e o 3º mais pacífico), que a estatística de crimes decresceu consecutivamente ao longo dos anos e que a tua perceção é provavelmente influenciada pelo que lês ou ouves por aí.


Se parares para pensar, vais perceber que o tempo era o mesmo; o dia tinha as mesmas 24h e o que fazias com elas era definido por ti, pelos teus pais, pelos adultos de referência que te rodeavam; vais perceber que este frenesim que hoje identificas depende muito de ti e que tu tens poder de decidir sobre ele.


A evolução da ciência trouxe-nos uma avalanche de conhecimento – sabemos hoje muito mais sobre a forma como as crianças aprendem e sobre como diferentes estímulos causam impacto nas suas vidas. Criaram-se pedagogias, ideologias, programas que se basearam na evolução das neurociências, da fisiologia, da psicologia, da pedagogia. E queremos tudo… tudo o que de melhor as horas que trabalhamos a mais podem pagar. Tudo o que nós não tivemos direito quando éramos crianças e que podia ter ditado um presente mais “estável” do ponto de vista financeiro, social, talvez…
Queremos o melhor para os nossos filhos, claro.

No entanto não tenho dúvidas que a maior parte dos pais organiza a vida dos seus filhos projetando o adulto que querem que eles venham a ser, mas valorizando pouquíssimo a criança que elas HOJE são… no seu corpo (que está a aprender a dominar, a desafiar e onde começa o acreditar que “sou capaz de fazer, de construir e ir mais longe”), no seu mundo (do qual ainda tem tanto para aprender; com as coisas da natureza, com os amigos, as pessoas do bairro, com os riscos e as oportunidades de descoberta que espreitam a cada momento).

Tenho a ideia de que todos desconfiamos que esta forma de “mostrarmos o mundo” às nossas crianças não pode ter futuro, porque estamos a construir as suas vidas ao contrário – a vida duma criança não pode ter mais tempo em frente a um ecrã do que ao ar livre; que estamos todos a aprender a encontrar um equilíbrio entre o “mundo artificial”, tão excitante, desafiante e frenético (construído socialmente por nós, pelas nossas expectativas, angústias e perceções) e o “mundo natural”, que é de onde vimos todos (onde todos começamos), que diz respeito à natureza de cada um de nós e que nos relembra que antes dos ecrãs e “internets”, do futebol à Ronaldo, da ciência à Einstein ou da música à Mozart, tem que haver uma criança que arrisca,
experimenta; que se diverte, “apaixona”; que “investiga” por ela própria; uma criança que imagina, que descobre (com) o seu corpo e que aprende a ligar imaginação com criação, de forma atenta, persistente, criativa e colaborativa (quando necessário). Tudo isto tem uma designação muito simples, que tu e eu conhecemos muito bem, porque fez parte da nossa história: Brincar, brincar livre, brincar na rua.

O mundo mudou, claro.  Está sempre a mudar…

Quando os filhos entram na equação, parece que tudo se torna mais confuso, exigente. Mas temos cada vez mais conhecimento – basta investigar; temos a nossa história – basta fechar os olhos e revisitar. Podemos a partir daqui encontrar um equilíbrio e pensar uma vida mais tranquila, feliz e saudável para os nossos filhos.
Por aqui – no Brincar de Rua – estamos a ajudar a construir alternativas, para que, neste mundo em mudança, cheio de desafios, consigamos dar oportunidade aos nossos miúdos para experimentarem o que melhor, mais edificante e mais feliz tivemos na nossa infância. Sem saudosismos, com ciência e, sobretudo, com envolvência de todos e segurança.

Está nas nossas mãos.

BRINCAR? BRINCAR É NA RUA!

Por Francisco Lontro, psicomotricista e coordenador do “Brincar de Rua”, o programa de inovação social que está a criar oportunidades para que as crianças possam brincar de novo na rua, em segurança.

 

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