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Era uma vez, numa terra bem, bem perto daqui!

Porque tudo começa com um sonho, o nosso foi o de dar a oportunidade a todas as crianças de poderem voltar a brincar na rua e em segurança.

Sim, poderem voltar porque, em tempos, já brincaram. Brincámos nós, brincaram os nossos pais e os pais deles (quando podiam e não tinham de trabalhar – e, ainda bem que, nesse caso, os tempos mudaram).

Então, porque é que o avançar dos tempos, o progresso, a inovação e tantas outras coisas boas, trouxeram consigo crianças fechadas em casa?

«Porque lá eu sei que, pelo menos, estão seguras» – respondem-nos vocês. «Lá não se magoam, não apanham doenças, não estão expostas a pessoas que lhes podem fazer mal».

Sim, o Mundo é uma gigante bola de perigos. Mas, feliz ou infelizmente, esses perigos não estão só da porta de casa para fora, também estão lá dentro.

Só a título de exemplo – porque até podíamos falar aqui de muitos outros – segundo o estudo 2013-2014 da Associação Portuguesa Contra a Obesidade Infantil, que contou com 18.374 crianças (uma das maiores amostras neste tipo de investigação): 33,3% das crianças entre os 2 e os 12 anos têm excesso de peso, das quais 16,8% são obesas; apenas 40% das crianças participam em atividades extracurriculares que envolvam atividade física.

 

Carlos Neto, professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, chega a afirmar em entrevista ao Observador que:

«As nossas crianças estão fechadas, amarradas, em casa, não têm liberdade de ação. (…) A falta de mobilidade das crianças tem consequências na saúde e aproveitamento escolar. E Portugal está na cauda do grupo de 16 países analisados. (…) O estudo português concluiu que há alterações necessárias de políticas públicas “mais ousadas”, pensadas para as crianças para inverter a atual situação: políticas que permitam aos mais novos brincar e desfrutar do espaço exterior, que permitam uma maior harmonização entre a vida familiar, escolar e em comunidade, e políticas urbanas que incluam uma planificação “mais amiga” das crianças e as encare como parte integrante e participante da sociedade.»


Será que queremos mesmo que as nossas crianças não possam usufruir de tudo o que a rua tem para oferecer? O ar; os amigos; os vizinhos do bairro com quem nos cruzamos todos os dias e que não conhecemos?

É que as crianças, além de terem o direito de correr livres pela rua, também têm direito a experimentar uma série de sensações novas e estreitamento de laços comunitários que só conseguirão se saírem para brincar nem que seja já ali, à porta do prédio, com os vizinhos.

E foi com este pensamento que o Brincar de Rua começou a ganhar forma.

Estávamos em dezembro de 2015 quando depois de termos participado numa formação sobre inovação social começámos a focar-nos no assunto e a desenhar a nossa “árvore de problemas”.

E, em fevereiro de 2016 realizámos um inquérito a cerca de 200 famílias e constatámos que existia uma vontade intrínseca em querer que as crianças voltassem a brincar na rua, sendo que, a partir daí iniciamos contactos com entidades portuguesas e europeias, para ver o que poderia ser feito.

 

       

Em março desse ano, munidos de todas as informações que recolhemos e mais um punhado de ideias, concorremos ao Prémio Faz IOP, da Fundação Calouste Gulbenkian, e qual não é o nosso espanto quando, em junho somos selecionados como os 10 melhores e iniciamos uma formação intensiva de aceleração do projeto.

Em Outubro, estávamos prontos para arrancar. Fizemos um projeto piloto em Leiria (a cidade de onde somos) que excedeu 4 vezes o que esperávamos com o grupo com lotação esgotada.

             

Avançámos e avançámos – até porque não somos de estar parados, como o nosso projeto dá bem para perceber – e fomos distinguidos como um dos 12 melhores projetos a nível mundial para a promoção de estilos de vida ativos/atividade física nas crianças da UEFA Foundation for Children, em 2017. Ano e que também vencemos o City Challenge em Coimbra, do Prémio Big Smart Cities.

Já tínhamos tudo para arrancar como deve ser e foi em Setembro que abrimos novos Grupos Comunitários de Brincar em Leiria e em 2018 noutras cidades do País, contando, hoje, com 100 Grupos Comunitários de Brincar de norte a sul de Portugal.

E, sim, trabalhámos muito. E, parece-nos que ainda estamos no início desta aventura. Arregaçamos as mangas e fazemo-nos à aventura de peito aberto. Parece-nos que as crianças merecem e fariam o mesmo por nós – tanto que, não vos parece muitas vezes que, afinal, são elas quem não tem medo de nada?

Somos todos uma única e só família, apesar de estarmos espalhados pelo País inteiro. Afinal, não dizem que o Mundo é uma ervilha? E Portugal, bem, é um pontinho tão pequenino que nos tratamos a todos pelo primeiro nome.

É este o movimento. É por aqui que começámos e que queremos continuar. Só estaremos felizes quando todos os bairros tiverem o seu Grupo Comunitário de Brincar e todas as crianças tiverem um sorriso nos lábios (mesmo que lhes falte um ou outro dente de leite – porque isso até faz parte do crescimento).

Queres fazer parte desta família?

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